Escreveu estas linhas nos seus derradeiros sete dias neste mundo. Ninguém sabe
se morreu; e o seu pai diz, a quem o quiser ouvir, que «ele andou com Deus como
Matusalém» [sic].
1. O sofrimento deles é-me estranho e incompreensível. Imagino que seja
simplesmente o meu egoísmo, a minha incapacidade de simpatizar com ninguém
além de mim. Seria fácil, se assim fosse. Mas duvido que o seja — que seja
tão simples.
2. Eu, sem o saber, tornei-me um deles.
3. O cansaço e a fome fazem-te escravo deles. Crescemos à custa desta fome — ora
física, ora espiritual — sem a qual nem a vida nem a morte têm significado.
Nascemos com esta fome por mestre; e algumas pessoas passam a vida toda sem o
saber, imaginando-se donas das suas próprias vidas, como se tivessem o
controlo. Por outro lado, quem percebe, percebe demasiado tarde; e, depois de
dar conta da verdade (isto é, depois de acordar), perde a esperança e
submete-se ao cansaço. Há pessoas que dizem que o cansaço é apenas um produto
da velhice; mas quem tem olhos sabe bem que o cansaço é o único modo de
aguentar a vida. Ser cansado é aceitar que sempre seremos sem poder, por mais
que façamos, digamos ou pensemos: que, uma vez nascidos, não há como fugir,
nem a morte nos pode libertar.
4. Só um santo pode amar-te; só um santo pode amar os pecadores. Não o sou.